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    Entre o vazio e a solidão

    Vomitei as entranhas, durante a noite toda. Foi uma sensação de desprendimento, tal como, quando queremos sair do nosso próprio corpo. Inundei-me em suores frios, enquanto vinha à minha mente a presença do teu rosto desfigurado pela morte. O sono embalou-me sem efeito, por entre uma cama dura de pensamentos que me assombraram sem piedade. E eu desejei ter-te de novo na minha vida, de um modo que só a verdadeira amizade consegue explicar. Então envolvi-me na ilusão dos teus braços esfumados pelo tempo e deixei-me acreditar na tua presença a envolver-me na imensidão do escuro. Saudade de ti amiga, foi a única coisa que consegui sentir, foi o único sentimento que consegui distinguir no meio do turbilhão de sentimentos confusos em que me inundei. Não, já não estás mais aqui ao alcance de uma mão estendida. Foda-se, já não há qualquer hipótese de voltar a ver-te.

    A noticia que recebi a tarde passada atordoou-me, deixou-me dormente. Sinto que fiquei letárgica, um tanto mais apática do que o que tem vindo a tornar-se habitual na minha vida. Preciso de dar mais de mim, se quiser assegurar o meu lugar, por aqui, mais uns tempos. Mas a coragem falta-me, o sangue vermelho começa a escassear nos impulsos de alegria que rareiam em mim. Não tenho mais amizades a quem eu possa recorrer para falar disto um pouco. E eu tenho medo de ficar a falar sozinha neste instante em que navego à deriva. A escrita e o espírito da tua presença são as únicas constantes a que eu me agarro para desabafar. Mas eu preciso de mais. Como eu preciso de alguém de carne e osso que possa confortar-me um momento. Não peço muito, peço apenas uma amizade que esteja disposta a sentar-se ao meu lado e se demore, um pouco, a ouvir os silêncios que escondo dentro de mim. Nem isso eu tenho hoje. Já nem uma amizade me sobra. Porque tu, minha amiga, morreste sem tempo para dizer-me adeus e eu afastei a outra amizade que me é importante.

    Está tanto frio. Tenho os poros abertos em arrepios que me fazem tremer o corpo. Neste momento, em que a lua se esconde atrás de nuvens de breu, já nada mais me importa. Tenho somente que redimir-me pelo que sou e deixar-me ir com o que me foi destinado. Sinto a alma a estremecer. Por isso, tenho que pedir perdão a quem acreditou em mim e que eu, de um modo ou de outro, consciente ou inconscientemente, trai. A todos aqueles que passaram pela minha vida, peço desculpas se nunca vos dei a atenção que procuraram e, conscientemente, vos magoei porque tenho a mania de catalogar e distinguir as pessoas em amigos e/ou família que gosto ou amo. Desculpem se vos afastei de mim, sem vos dar qualquer hipótese de aproximação e sem sequer ouvir as angustias que tomaram conta dos vossos dias. A ti, amiga que afastei, quero entregar, aqui com palavras, o meu pedido de desculpas por toda a dor que te causei em momentos de egoísmo. Tenho noção do que disse e porque o fiz. Sinto que a minha opinião foi expressa de um modo a que nunca te habituei e isso feriu os princípios pelos quais sempre nos guiámos. Sei que sempre te dei o melhor de mim, em tudo o que fiz por ti. Hoje essa dedicação leva-me a crer que, por ter dado demais, a tua ausência é o castigo que mereço. Tudo bem, tenho a consciência tranquila porque sinto que te amei como amiga o melhor que pude, arriscaria a dizer que tiveste com a minha amizade o melhor que algum dia terás. Talvez a tua opinião seja diferente e digas que apenas tiveste o pior que poderias ter tido. Se for esse o caso, eu também peço desculpa. Somente lamento que a amizade em que sempre acreditámos termine assim, deste modo. Lamento que termine sem grande esforço da tua parte para lutar por algo em que sempre me fizeste acreditar. Mas como tu disseste "a confiança foi quebrada", eu só tenho que aceitar isso e seguir em frente com o que resta. Por saber o quanto te magoei, como me dói toda esta situação e sentir que, talvez, nunca mais tenha a hipótese de falar contigo, estou aqui deitada sobre estas palavras que me levam a escrever numa folha de desabafos. E neste momento, perdão é a única palavra que me escorre no pensamento, mesmo sabendo que o orgulho que sempre te caracterizou é um entrave a uma mudança no juízo final que já fizeste de mim.

    Agora que a madrugada clareia no horizonte, abro mais as janelas e deixo-me ficar a arrefecer, ainda mais, a alma que estremece cá dentro. Dentro de algum tempo já poderei ver as ondas que rasgam o mar que se revolta adiante. De braços cruzados contra o peito, estendo o pensamento até ti... tenho esperança que consigas ouvir que me encontro entre o vazio e a solidão. Tenho esperança que me leves ao teu encontro, seja ele qual for, estejas tu onde estiveres.
    Copyright © Tytta

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    “Rascunhos & Sentimentos”

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    Rosangela e Lú



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    Sept. 13

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